Brumadinho e o plano de emergência: quando evacuar pode não ser suficiente
Quando pensamos em um plano de emergência, algumas medidas aparecem quase automaticamente: sirene, rota de fuga, ponto de encontro, treinamento e simulado.
Todas são importantes.
Mas existe uma pergunta que precisa vir antes:
As pessoas realmente terão tempo para escapar?
O rompimento da Barragem B-I, em Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, mostrou de forma trágica por que essa pergunta precisa fazer parte de qualquer análise de riscos.
Havia trabalhadores em instalações localizadas a jusante da barragem, incluindo áreas administrativas e o refeitório. Em determinados pontos, o intervalo entre o rompimento e a chegada da onda de rejeitos era extremamente curto.
Isso muda completamente a lógica de um plano de emergência.
Não basta perguntar como evacuar.
É necessário avaliar se existe tempo suficiente para que a evacuação seja efetiva.
Plano de emergência e tempo de resposta
Em uma situação crítica, o trabalhador precisa perceber o perigo, compreender o alerta, interromper sua atividade, identificar a rota de fuga, deslocar-se e alcançar uma área segura.
Cada uma dessas etapas consome tempo.
Por isso, o tempo disponível para abandono deve ser comparado ao tempo real necessário para evacuação.
Quando o perigo pode atingir determinada área antes que as pessoas consigam deixá-la, a evacuação deixa de ser uma barreira suficientemente confiável.
Nesse cenário, a gestão de riscos precisa atuar antes.
O layout também é uma medida de segurança
Uma das principais lições de Brumadinho é que a localização das pessoas e das instalações faz parte da prevenção de acidentes.
Refeitórios, escritórios, vestiários, portarias e salas de controle podem parecer áreas de baixo risco porque não estão diretamente relacionadas ao processo produtivo.
Entretanto, sua localização deve considerar os cenários de emergência previstos na análise de riscos.
Uma instalação ocupada permanentemente não deveria ser avaliada apenas pela atividade realizada dentro dela, mas também pelos perigos existentes ao seu redor.
Se pessoas permanecem dentro da zona potencial de impacto de um evento grave e não existe tempo compatível para abandono, o próprio layout passa a representar um fator relevante de exposição.
Em determinados riscos, a melhor medida não é evacuar mais rápido.
É reduzir ou eliminar a presença de pessoas na área que pode ser atingida.
A sirene é uma barreira de segurança, não uma garantia
Um sistema de emergência depende de várias etapas funcionando corretamente.
O perigo precisa ser detectado. O alerta precisa ser acionado. A sirene precisa funcionar. O sinal precisa ser percebido. Os trabalhadores precisam compreender o que está acontecendo, conhecer a rota de fuga e conseguir chegar a uma área segura.
Quando a proteção das pessoas depende exclusivamente das últimas etapas dessa sequência, existe pouca margem para falhas.
Por isso, uma gestão de riscos eficiente não deve depender de uma única barreira.
O plano de emergência deve fazer parte de um sistema maior de prevenção, controle, monitoramento e redução da exposição.
Por que os simulados de emergência são essenciais?
O simulado não deve servir apenas para cumprir uma programação interna.
Ele precisa testar o sistema.
É durante um exercício que a empresa consegue verificar se o alerta é percebido, se as rotas de fuga estão adequadas, se os trabalhadores sabem como agir e se o tempo necessário para abandonar a área é compatível com o cenário de emergência considerado.
O tempo medido durante os simulados também pode revelar uma informação crítica: em determinados cenários, mesmo um procedimento executado corretamente pode não ser rápido o suficiente.
Essa conclusão precisa retroalimentar a análise de riscos.
O pior momento para descobrir que um plano de emergência não funciona é durante a própria emergência.
As lições de Brumadinho vão além das barragens
A discussão não se restringe ao setor de mineração.
Empresas podem enfrentar diferentes eventos capazes de produzir consequências graves, como incêndios, explosões, liberações de produtos químicos, falhas em equipamentos pressurizados ou outras situações de emergência.
A pergunta fundamental permanece a mesma:
Se o pior cenário previsto ocorrer hoje, quem estará na trajetória do perigo?
Essa pergunta deve fazer parte do planejamento de instalações, da análise de riscos e da elaboração dos planos de emergência.
Plano de emergência é uma das últimas linhas de defesa
Ter um plano de emergência é indispensável.
Mas o plano não deve ser tratado como a principal estratégia de controle.
Antes de depender da evacuação, a empresa deve buscar medidas capazes de prevenir o evento, detectar desvios, controlar sua evolução, limitar consequências e reduzir a quantidade de pessoas expostas.
Essa lógica está diretamente relacionada aos princípios da gestão de riscos ocupacionais.
A prevenção começa antes da sirene.
Brumadinho deixa uma lição importante para profissionais de segurança do trabalho, gestores e empresas:
um bom plano de emergência não começa perguntando apenas como retirar as pessoas do perigo. Ele começa perguntando por que elas estão expostas àquele perigo e se existe uma maneira de evitar essa exposição.