No dia 1º de maio de 1994, milhões de brasileiros estavam diante da televisão. Ayrton Senna largava na frente no Grande Prêmio de San Marino, em Imola. Para o Brasil, não era apenas uma corrida. Havia expectativa, orgulho e uma relação construída durante anos com aquele capacete amarelo.
Mas aquele fim de semana já vinha dando sinais de que algo estava errado.
Na sexta-feira, Rubens Barrichello sofreu um forte acidente durante os treinos. No sábado, Roland Ratzenberger morreu após um impacto durante a classificação. No domingo, Senna sofreu o acidente fatal na curva Tamburello.
Três acontecimentos diferentes, dentro de um dos ambientes tecnologicamente mais avançados do mundo.
Para a Segurança do Trabalho, existe uma reflexão importante nisso: alta tecnologia não significa ausência de risco.
Até os melhores precisam de barreiras
A Fórmula 1 reúne profissionais altamente qualificados, engenharia, telemetria, análise de dados, procedimentos e equipamentos desenvolvidos especificamente para situações extremas.
Ainda assim, continua sendo uma atividade de alta energia, na qual pequenas alterações podem produzir grandes consequências.
É também um exemplo interessante para compreender o modelo do Queijo Suíço, de James Reason. Um evento grave dificilmente depende de uma única falha. Existem diferentes camadas de proteção e, quando suas fragilidades se alinham, o perigo consegue atravessar o sistema até produzir o dano.
Imola também deixou outra lição: experiência não torna ninguém invulnerável.
Senna era um dos melhores pilotos do mundo. Extremamente técnico, atento aos detalhes e disciplinado. Mesmo assim, precisava de um sistema seguro ao seu redor.
Essa lógica vale para qualquer atividade profissional.
O melhor operador ainda precisa de bloqueio. O melhor eletricista precisa de procedimento. O melhor motorista precisa de uma jornada adequada. Experiência é uma camada importante de segurança, mas nunca substitui as demais.
Quando alta performance vira pressão
Existe ainda outra leitura de Imola que ultrapassa o automobilismo.
Por trás do piloto existe um trabalhador submetido a velocidade, calor, ruído, vibração, forças físicas e uma enorme pressão por desempenho. E é justamente a pressão que aproxima essa história da realidade de muitas empresas.
Metas incompatíveis, prazos irreais, equipes reduzidas, falta de pausas, urgências constantes e jornadas prolongadas podem fazer com que trabalhar no limite seja confundido com alta performance.
Não são a mesma coisa.
Uma organização pode exigir excelência sem transformar sobrecarga em virtude. Na gestão dos riscos ocupacionais, fatores relacionados à organização do trabalho também precisam ser reconhecidos e gerenciados.
Toda empresa, de alguma maneira, possui sua própria “Tamburello”: aquele ponto crítico conhecido pela equipe em que a operação acelera, a pressão aumenta e a decisão entre parar, corrigir ou improvisar precisa ser tomada.
É justamente nesses momentos que a cultura de segurança deixa de ser discurso e aparece na prática.
Depois de Imola, a Fórmula 1 passou por uma profunda evolução em segurança. Carros, circuitos, barreiras, equipamentos de proteção e procedimentos médicos foram aprimorados. O esporte continuou rápido e competitivo, mas as lições daquele fim de semana ajudaram a transformar suas barreiras de proteção.
No novo episódio do Bom Dia com Segurança, o Dr. Enos revisita Imola com respeito à história de Ayrton Senna e propõe uma reflexão que vai muito além das pistas: até onde podemos pressionar pessoas e sistemas antes de ultrapassarmos seus limites?
Assista ao episódio completo no canal Bom Dia com Segurança e descubra qual pode ser a “Tamburello” da sua operação.