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•   21/09/2026

Segurança na montagem de estruturas: guia técnico

Em 10 de setembro de 2026, por volta das 10h, uma equipe erguia a cobertura de um galpão em construção na unidade da Galvani, em Luís Eduardo Magalhães (BA), quando parte da estrutura desabou. Seis trabalhadores estavam envolvidos na instalação de peças de madeira na parte aérea da estrutura, destinadas a sustentar o telhado; dois guindastes tombaram junto com a estrutura. Quatro pessoas morreram — José Carlos Marcelino da Silva, 25 anos; Ullisses Rodrigues Barbosa, 26; Sergio Silva dos Santos, 30; e Jackson dos Santos Silva, 33 — e duas ficaram feridas. Todos eram terceirizados. O Ministério Público do Trabalho abriu análise preliminar para avaliar a abertura de inquérito civil.

As causas específicas ainda estão sob investigação, e não cabe antecipá-las. Mas o caso expõe um princípio central da engenharia de estruturas: uma estrutura em montagem não é uma versão incompleta da estrutura pronta — é um sistema físico diferente, com lógica de estabilidade própria, que costuma ser tratada como detalhe operacional em vez de requisito de projeto.

Por que a estrutura “pela metade” é a mais perigosa

Um projeto estrutural calcula a edificação em sua condição final, com contraventamentos fechados e cargas distribuídas por múltiplos caminhos. Durante a montagem, esse sistema ainda não existe: pilares isolados, vigas não conectadas e contraventamentos incompletos geram instabilidades que não aparecem nos cálculos da condição final.

A ABNT NBR 8800 exige que a estrutura seja analisada considerando também as condições transitórias da montagem, não só a condição de serviço. Ignorar isso compromete a segurança desde o projeto — não apenas na execução. Por isso acidentes de montagem tendem a ser mais frequentes e graves: a margem de segurança da fase transitória é menor, e qualquer erro de sequência ou escoramento tem pouca “rota de fuga” estrutural.

Estabilidade provisória: responsabilidade com dono definido

Estabilidade provisória é o conjunto de contenções — estais, escoras, cabos — que garante que a estrutura resista às cargas da montagem (vento, peso próprio, equipamentos) antes de estar fisicamente completa. Cabe à montadora planejar, fornecer e instalar essas contenções, dimensionadas contra as cargas operacionais e climáticas normais da montagem.

Quando o travamento definitivo depende de algo que só existe depois — uma laje que ainda vai curar, por exemplo —, essa condição precisa estar explícita no planejamento, porque até lá é a contenção provisória que sustenta a estrutura. A pergunta prática de qualquer liderança de montagem deveria ser: “Se eu parar aqui agora, o que está de pé continua de pé?” Se a resposta depende de alguém segurar um cabo ou o vento não soprar forte, a estabilidade não está resolvida — está sendo assumida como risco.

Escoramento: projeto, não improviso

Escoramento não é apenas “colocar um apoio embaixo”. O projeto de formas e escoramentos deve ser elaborado por profissional habilitado, especificando inclusive a sequência de retirada — retirar fora de ordem pode transferir carga abruptamente para elementos ainda não preparados para recebê-la, um mecanismo clássico de colapso progressivo. A área do escoramento também exige isolamento e sinalização, com medidas contra queda livre de peças.

Escoramentos improvisados em campo, sob pressão de prazo e sem cálculo, costumam ser consequência de projetos que não anteciparam a estabilidade da fase de montagem — não uma falha pontual de execução.

Sequência de montagem é decisão de engenharia

A ordem de instalação de pilares, vigas e contraventamentos é parte do projeto, não escolha operacional livre. Enquanto a estrutura não fecha e não recebe o contraventamento definitivo, ela depende de escoramento e cabos provisórios. Adiantar etapas — como instalar cobertura antes do contraventamento estar completo — pode deixar trechos inteiros dependendo de conexões sem capacidade para as cargas aplicadas, exatamente o tipo de cenário em que trabalhadores sobre a estrutura ficam expostos a um colapso rápido. Mudanças de sequência decididas no canteiro deveriam sempre retornar à engenharia antes de serem executadas.

APR: o que resolve e o que não resolve

A APR identifica perigos de uma tarefa específica, no momento em que ela vai começar. Ela não substitui o projeto de estabilidade provisória nem o cálculo de escoramento.

DocumentoCobreQuem elaboraFrequência
PGRGestão macro dos riscos da obraEngenharia/técnicoContínua
APRTarefa específica do diaEquipe + técnicoDiária
PTLiberação de atividade crítica (altura, confinado)SupervisorPor turno

Uma equipe pode preencher uma APR correta para “instalar peça de cobertura” e ainda estar exposta a um risco estrutural que a APR nunca captaria — porque esse risco está no projeto da estrutura, não na tarefa do trabalhador.

Gestão de contratadas: terceirizar execução não terceiriza responsabilidade

No acidente citado, os trabalhadores eram de empresa terceirizada — dado que não indica causa, mas expõe um ponto estrutural do setor. A NR-18 estabelece gestão de riscos compartilhada: a contratante deve informar à contratada os riscos do canteiro que a impactam, e a contratada deve fornecer à contratante o inventário de riscos das atividades que vai executar.

Isso implica três responsabilidades que não se diluem com a terceirização: a contratante segue responsável pela gestão de riscos do canteiro como um todo; a contratada responde tecnicamente pela sua frente de trabalho; e a integração entre as duas — reuniões, troca de inventários, alinhamento sobre interferências entre frentes simultâneas — precisa ser real, não protocolar.

Liberação de etapas: quem autoriza importa tanto quanto o quê

Todo avanço de etapa depende de verificar se as contenções provisórias anteriores seguem íntegras, se as ligações previstas foram executadas e conferidas, e se não há sobrecarga além do planejado. O risco cresce quando essa liberação vira formalidade em vez de verificação técnica — quando a próxima fase começa porque “o cronograma exige”. Esse intervalo entre verificar e autorizar precisa ter responsável técnico claro, especialmente quando a liberação é da contratante e a execução seguinte já é da contratada.

Pontos de atenção recorrentes

Sem atribuir causa a este caso específico, a literatura técnica aponta fatores recorrentes em falhas de montagem: contenção provisória subdimensionada; alteração de sequência sem retorno ao projeto; sobrecarga não prevista (equipamentos, material, pessoal concentrado); falha de comunicação entre contratante e contratada sobre riscos cruzados; e pressão de cronograma liberando etapas sem verificação completa.

Recomendações

  • Formalizar o projeto de montagem — estabilidade provisória e sequência — e garantir que seja seguido em campo, não apenas arquivado.
  • Tratar mudança de sequência no canteiro como exceção que exige validação técnica prévia.
  • Integrar de fato o inventário de riscos entre contratante e contratadas, com atenção a interferências entre frentes simultâneas.
  • Formalizar a liberação de etapa como checkpoint técnico com responsável identificado.
  • Lembrar que a APR complementa, mas não substitui, o projeto de estabilidade da estrutura.

Conclusão

O que separa uma montagem segura de um colapso raramente é a ausência de regras — é a distância entre o que está no projeto e o que acontece no canteiro sob pressão de prazo. Estabilidade provisória, escoramento, sequência, APR, gestão de contratadas e liberação de etapas formam um único sistema: quando um desses pontos falha silenciosamente, a estrutura pode seguir de pé até que a combinação certa de carga, tempo e circunstância exponha a falha — com pessoas em cima dela.


Fontes e referências

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