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•   14/09/2026

13 de setembro de 1987: o dia em que Goiânia descobriu o risco que não se vê

Há 38 anos, numa manhã comum em Goiânia, começava uma história que o Brasil jamais esqueceria.

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Dois homens entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia e removeram parte de um aparelho de radioterapia abandonado. Não havia sinalização de perigo. Não havia controle institucional. Não havia ninguém para dizer o que aquela máquina continha.

O que havia era um cilindro metálico pesado. E dentro dele, uma fonte de Césio-137, radioativa o suficiente para contaminar uma cidade inteira.


O brilho que encantou uma cidade

Dias depois, o material chegou ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira. Naquela noite, ele percebeu algo incomum: um brilho azul intenso saindo de dentro da peça. Não era ameaça. Era maravilha. Era algo que ninguém havia visto antes.

O cloreto de césio, liberado após a violação da cápsula protetora, espalhava-se em forma de pó azul brilhante. Devair compartilhou a descoberta com familiares e vizinhos. O material foi manuseado, distribuído, levado para dentro de casas. Crianças brincaram com ele. Adultos o esfregaram na pele.

Ninguém sabia que estava manuseando um dos materiais radioativos mais perigosos utilizados na medicina.


A mulher que salvou Goiânia

As pessoas começaram a adoecer. Vômitos, queimaduras, mal-estar, lesões que não cicatrizavam. Mas sem nexo causal claro, ninguém conectava os sintomas ao brilho azul.

Foi Maria Gabriela Ferreira quem mudou esse curso. Esposa de Devair, adoeceu poucos dias depois do contato. Mas fez algo decisivo: pegou o material desconhecido numa sacola plástica e levou até a Vigilância Sanitária. Um gesto simples, quase improvável diante da gravidade da situação, que disparou a identificação do desastre.

O físico Walter Mendes mediu o material e compreendeu a dimensão do que estava diante dele. A área foi isolada. O Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar entraram em ação. E Goiânia descobriu que estava diante de algo muito maior do que qualquer um havia imaginado.

Maria Gabriela não sobreviveu. Morreu semanas depois da exposição. Assim como Leide das Neves Ferreira, uma menina de 6 anos que se tornaria uma das vítimas fatais mais marcantes do acidente.


A dimensão da tragédia

A descontaminação de Goiânia gerou cerca de 3.500 metros cúbicos de rejeitos radioativos. Com meia-vida de aproximadamente 30 anos, o Césio-137 ainda mantinha próximo da metade de sua atividade radioativa original três décadas depois do acidente, exigindo controle especializado por muitas décadas mais.

Casos graves foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Especialistas internacionais se juntaram à resposta. Mais de 100 mil pessoas foram monitoradas. Residências foram demolidas. Áreas inteiras foram interditadas.

O Brasil se viu diante de um tipo de emergência para o qual quase ninguém, naquele cenário urbano, estava realmente preparado.


O que 13 de setembro ainda ensina

O acidente do Césio-137 não foi causado por maldade ou imprudência isolada. Foi o resultado de barreiras falhando em cadeia, a física, a administrativa, a regulatória, a de informação e a de reconhecimento. Cada falha abrindo caminho para a próxima.

E a lição mais importante que Goiânia deixou não é sobre radiação. É sobre o risco que não faz barulho. Sobre o perigo que não tem cara de perigo. Sobre a diferença entre presença de um agente e capacidade de reconhecê-lo antes que o dano aconteça.

38 anos depois, essa lição ainda precisa ser repetida. Porque enquanto houver riscos invisíveis no ambiente de trabalho e sempre haverá, Goiânia continua sendo uma aula aberta.

“Goiânia mostrou que o risco invisível exige método.”

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